terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O que é índice ?

. O que é índice ?


Segundo Dubois, algumas pesquisas pós estruturalistas encontram apoio em certos conceitos da teoria de Charles Sanders Peirce, em particular na noção de índice (por oposição a ícone e a símbolo), que alguns vêem como uma lógica, senão uma epistemologia, da qual a imagem fotográfica forneceria um modelo exemplar.  A evolução do pensamento a respeito da fotografia é sintetizada em três etapas: 

A fotografia como espelho do real (o discurso da mimese). O efeito de realidade ligado à imagem fotográfica foi a princípio atribuído à semelhança existente entre a foto e seu referente. De início, a fotografia só é percebida pelo olhar ingênuo como um “analogon” objetivo do real. Parece mimética por essência. Essa idéia mimética de espelho do real é que Ch.S.Peirce atribui à definição de ícone.

A fotografia  como transformação do real (o discurso do código e da desconstrução). Logo se manifestou uma reação contra esse ilusionismo do espelho fotográfico. O principio de realidade foi então designado como pura “impressão”, um simples “efeito”. A imagem não é um espelho neutro, mas um instrumento de transposição, de análise, de interpretação e até de transformação do real, como a língua, por exemplo, e assim, também, culturalmente codificada. Corresponde à noção peirciana de símbolo.

O fotografia como traço de um real. Marca-se aqui um retorno ao referente, mas sem a obsessão da verossimilhança ou mimese. “A imagem foto torna-se inseparável de sua experiência referencial, do ato que a funda (...) nada diz mais além de uma afirmação de existência. A foto é em primeiro lugar índice. Só depois ela pode tornar-se parecida (ícone) e adquirir sentido (símbolo)” . 

     Sintetizando minha compreensão dessas distinções que me parecem centrais para este trabalho:

Na primeira concepção (ícone), a foto é uma reprodução mimética do real, espelho do mundo; assim ela aparecia quando surgiu e, para um olhar que desconhece as suas problemáticas, acho que assim ainda hoje aparece. Daí decorreu a negação inicial de seu valor como arte, já que consistiria em uma cópia mediada mecanicamente, sem intervenção do artista. 

Em uma reação de oposição, a foto passa a ser analisada como uma interpretação-transformação do real, como uma formação arbitrária, cultural, ideológica e perceptualmente codificada (símbolo). Segundo essa concepção, a imagem não pode representar o real empírico (cuja existência é, aliás, recolocada em questão pelo pressuposto sustentado por tal concepção: não haveria realidade fora dos discursos que falam dela), mas apenas uma espécie de realidade interna transcendente. A foto é aqui um conjunto de códigos.

Ao propor a análise da foto – e depois, de outras expressões plásticas –,  como traço, valendo-se da noção peirciana de índice, Dubois de certa forma sintetiza essa oposição: sem ser necessariamente verossímil, a obra conserva um vínculo, um vestígio, uma marca, da circunstância de sua produção. “O signo fotográfico não pode ser definido fora de suas “circunstâncias”: não é possível pensar a fotografia fora de sua inscrição referencial e de sua eficácia pragmática” . É porque se considera o modo de produção que é possível superar o obstáculo epistemológico da semelhança. A foto não implica necessariamente semelhança, mas implica necessariamente contigüidade com o real (índice). Decorrem como conseqüências a singularidade  – a foto remete a apenas um referente, aquele que a causou; a atestação -  ela atesta (testemunha, prova) a existência do objeto fotografado (embora nada diga sobre seu sentido) e a designação -  ela aponta (designa) aquele referente (objeto).

Roland Barthes enfatiza em diversos contextos o caráter indiciário da fotografia e sua conseqüente propriedade de atestação, ao mesmo tempo que deixa claro que essa concepção não se reduz a um realismo ingênuo: 


“Os realistas, entre os quais estou, e entre os quais eu já estava quando afirmava que a fotografia era uma imagem sem código – mesmo que, evidentemente, códigos venham infletir sua leitura – não consideram de modo algum a foto como uma “cópia” do real – mas como uma emanação do real passado: uma magia, não uma arte” 


“Eles estavam lá; o que vejo não é uma lembrança, uma imaginação, uma reconstituição... mas o real no estado passado; a um só tempo o passado e o real (referindo-se a uma foto de soldados poloneses em campo)”.


E ainda, salientando o caráter de traço:


“A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real que estava lá, partiram radiações que vêm me atingir, a mim, que estou aqui; pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem me tocar como os raios retardados de uma estrela”.

Pode-se perguntar: quais são os limites do real do qual a obra é traço, daquilo que atesta e daquilo que designa? Esse real refere-se apenas ao objeto representado, ou inclui outros aspectos da circunstância de produção – inclusive o artista? Sob este ângulo de análise, em que diferem ou se assemelham a fotografia e a pintura?  


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