A mesa de trabalho
A mesa de trabalho, para a qual a cópia da foto é levada, funciona como uma mesa de luz. Adaptei, a um tampo de vidro, um abajur em torno do qual ajustei um papel cartão, o que me permitiu concentrar o foco da luz trabalhando também com a sombra e, na primeira etapa do trabalho, enquadrar os recortes da foto. Na fase atual, o enquadramento é feito ao ser fotografada a intervenção já realizada.
Uma vez com a folha com a imagem xerocada sobre a mesa, sobreponho uma folha de papel sulfite, na qual inicio o processo indiciário através da pintura.
A mesa de luz combina vários atributos dos dispositivos óticos que estão na origem da fotografia e, antes disso, na história da pintura. Como um espelho, ela devolve a imagem: embora não invertida, e projetada mais ou menos íntegra (como uma sombra, e diferentemente do espelho) pela incidência da luz através da superfície original e da transparência do vidro. Nesse mecanismo, aproxima-se das máquinas de retratar perfis de sombra (século XVIII, cf Dubois. Como a câmara obscura já utilizada por pintores setecentistas e precursora da câmara escura da fotografia, ela permite uma inscrição por contigüidade – mas diferentemente da câmara fotográfica, e da mesma forma que na câmara obscura, essa inscrição requer a mão do artista. Nesse sentido, aproxima-se ainda mais da câmara clara ou lúcida, definida por Aurélio como “um instrumento constituído de prismas de reflexão total, mediante o qual se pode observar simultaneamente um objeto e sua imagem projetada sobre uma folha de papel, para ser desenhada”. A mesa de luz, em última instância, é uma versão simplificada da câmara clara. Tal como esta, requer a mediação da mão humana, o que leva Barthes a utilizar a câmara clara como metáfora da mediação humana de toda fotografia, da intervenção da pessoalidade do fotógrafo na foto: na leitura de Barthes, o homem é a câmara clara que vê a fotografia com a sua sensibilidade física e emocional, para além da sensibilidade química e física do processo mecânico de fotografar. Mais do que como metáfora, a mesa de luz, tal como a câmara clara, força e explicita a intervenção da mão e da sensibilidade humanas, a presença concreta e irrefutável da pessoalidade do artista.

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