Qual a questão, então?
Penso em índice como síntese de uma dialética na qual ícone é tese e símbolo é antítese. Tese: a representação é o real, o espelha; antítese: a representação não é o real nem o espelha, é a leitura culturalmente codificada do mundo; síntese: a representação conserva um traço do real, ainda que sua produção e sua leitura sejam mediadas pessoal e culturalmente.
Como classificar plasticamente a noção de índice? O índice não significa que haja uma relação de mimese entre o objeto e sua representação; significa que o objeto esteve à frente da máquina fotográfica, por isso atesta – documenta, marca – a sua presença naquele momento. Dentro desta noção pode parecer que seria fácil índice e ícone se confundirem: índice atesta a presença, mas se a imagem representa uma cadeira, como não perceber a verossimilhança? Como discernir que aquela cadeira representada na fotografia não é um espelho do real? Creio que a resposta se encontra no que entendo como uma purificação da noção de índice. Índice, antes de marcar a presença ou não de tal cadeira, é o contato da placa sensível com esse real vindo através da luz. Uma foto com um longo período de exposição teria menos valor de índice por ter uma indefinição de imagem? Uma foto em preto e branco teria um valor menor de índice por ser em preto e branco? Radicalizando o sentido de índice, Barthes sugere que teria, ao contrário, até mais valor:
“Sempre tenho a impressão de que (...) em qualquer fotografia a cor é um revestimento aposto ulteriormente sobre a verdade original do branco-e-preto (...) Pois o que me importa não é a “vida” da foto (...) mas a certeza de que o corpo fotografado vem me tocar com seus próprios raios”.
Quando Dubois identifica nos primórdios da pintura o valor de índice, ele explicita o contato como seu fator determinante, é preciso haver um referente real onde possa se marcar. Mas esta marca necessariamente precisa identificar o seu referente para que lhe seja atribuída valor de índice? Talvez o primeiro passo para discernir índice de ícone, plasticamente falando, esteja nesta reflexão.
O homem por trás do traço
Em última instância, a questão parece ser a presença do Homem no índice, o que remete ao que foi colocado na reflexão anterior sobre pintura. Talvez se possa dizer que o “clic” fotográfico, ou seja, o momento da abertura, o momento do índice, é como que um ato puro. Porém não vejo como desconsiderar a presença do homem por trás desse ato. O contato da superfície sensível com uma parte do real dá-se através de lentes que se propõem a imitar o olho humano. Será que todos os olhos traduzem a imagem do “real” da mesma maneira? Há um olho por detrás da câmera, que recorta a imagem a ser imortalizada, ou seja, que escolhe uma imagem qualquer e a recorta: será que este ato já não carrega em si uma intencionalidade, um traço do homem que a faz ?
Pensando na pintura como índice, há a mão que a marca. Será que essa mão não traz em si a presença do artista, mais do que isso, uma certa intencionalidade mesmo que inconsciente ? Será possível o artista ou qualquer pessoa conseguir manter uma imparcialidade, seja no índice fotográfico, seja no índice através da pintura? Não é o artista um aspecto da circunstância que é imortalizada, imobilizada, tanto na foto quanto na pintura? E isso nos traz à questão do tempo.

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