quarta-feira, 25 de novembro de 2009

1. Uma reflexão sobre pintura

1. Uma reflexão sobre pintura

Há muitas perspectivas a partir das quais se pode refletir sobre pintura, e a que se propõe mais imediatamente é a reflexão histórica. Obviamente, a História testemunha o seu significado e o compartilha, não só com pintura, mas com a arte de forma geral, se espelha nela.

A pintura, assim como as outras artes, demonstra com eficácia as muitas nuances da Historia. No entanto, no presente texto, achei mais relevante concentrar-me sobre um ponto de vista mais particular em relação à pintura. Acredito que cada artista tem pequenas diferenças em seu relacionamento, em sua maneira de pensar, sentir e conceber a pintura. Hoje penso a pintura como a  imprimir intensidades através do pincel. Expressas através dos movimentos do pincelar, das camadas em transparência ou totalmente saturadas, a escolha das cores sejam elas quentes ou frias, a tinta seja sobre o papel ou sobre a tela são marcas, e cada artista marca de um jeito, na maneira de pegar o pincel, de compor a tinta, de apoiar a si e ao pincel no papel, o tempo de interação, em pinceladas rápidas ou lentas,  ele imprime o seu próprio eu na construção da obra; a maneira como se organiza o processo quase que mecânico e extremamente particular em que o artista concebe o seu pintar e o seu olhar para o mundo, retendo ou o exprimindo a maneira de senti-lo, tudo isso se imprime no seu pincelar como que uma identidade. A linguagem abstrata, ao contrário do que parece, não oculta, desvela.  Através das pinceladas, o ato ganha um sentido libertário e desvelador, desde pequenas nuances até grandes marcas que, de tão agressivas, marcam o suporte; os contrastes, as intensidades de luz , ou simplesmente pequenas nuances transparentes operando sutilezas, são armas reveladoras. Elas desvelam o artista. Isto não significa que eu não entenda ou não me interesse pelas outras linguagens às quais a pintura dá acesso. Interesso-me pela a questão do desenho e a conversa com a forma do suporte, pesquisas também compartilhadas por Greenberg; apesar da admiração pela pintura figurativa  acredito que ela não corresponde aos objetivos de meu trabalho. O fato de optar por trabalhar com uma linguagem compartilhada com a abstrata, não significa que não me interesse por outras linguagens; significa apenas que a linguagem que melhor me serve nesta pesquisa é uma linguagem compartilhada com a da abstracionismo. Entre suas qualidades, entendo que essa explicitação do artista seja, não apenas uma ferramenta útil, e sim uma ferramenta necessária. Uma coisa que o trabalho veio me ensinar é que as boas ferramentas se explicitam como necessárias. Quase não há escolha, ou antes, há escolha, só que não é sua, é do trabalho. O trabalho aponta caminhos. 


             Em 1939, num diálogo com Brassai, Picasso afirma:


“Quando você vê tudo o que é possível exprimir através da fotografia, descobre tudo o que não pode ficar por mais tempo no horizonte da representação pictural. Por que o artista continuaria a tratar de sujeitos que podem ser obtidos com tanta precisão pela objetiva de um aparelho de fotografia? Seria absurdo, não é? A fotografia chegou no momento certo para libertar a pintura de qualquer anedota, de qualquer literatura e até do sujeito. Em todo caso, um certo aspecto do sujeito hoje depende do campo da fotografia” .


            Esse discurso é retomado por André Bazin no texto “A ontologia da imagem fotográfica” (1945):


“Rematando o barroco, a fotografia libertou as artes plásticas de sua obsessão da semelhança. Pois a pintura esforçava-se, no fundo em vão, em nos iludir, e essa ilusão bastava à arte, enquanto a fotografia e o cinema são descobertas que satisfazem definitivamente e em sua própria essência a obsessão do realismo(...). Libertado do complexo da semelhança, o pintor moderno – cujo mito é hoje Picasso – abandona-o ao povo que o identifica a partir de então por um lado à fotografia e, por outro, apenas à pintura que se aplica a isso”. 


O que é fotografia?


O que é fotografia?


Penso que a fotografia acima de tudo é o meio que mais se aproxima de um valor de face, do que é o real, daí sua importância permanente como documento simbólico, de memória cultural. Porém há uma série de questões a se considerar.


A questão da dimensionalidade 

 Rudolf Arnheim  afirma:


“Em primeiro lugar, a fotografia oferece ao mundo uma imagem determinada ao mesmo tempo pelo ângulo de visão escolhido, por sua distância do objeto e pelo enquadramento. A fotografia reduz a tridimensionalidade do objeto a uma imagem bidimensional, todo o campo cromático reduzido a contrastes brancos e pretos. Ela isola um ponto preciso do espaço-tempo e é puramente visual”.


A questão da luminosidade/ cor

Lady Elizabeth Eastlake, em texto publicado em 1857:


“Conseqüentemente, é evidente que, qualquer que seja o sucesso que a fotografia possa ter quanto a uma estrita imitação dos jogos de sombra e de luz, nem por isso deixa de falhar na restituição de um verdadeiro “chiaroscuro”, ou na verdadeira imitação da luz e da obscuridade. E, mesmo se o mundo no qual nos encontramos, em vez de se exibir diante de nossos olhos com todas as variedades de uma paleta colorida, só fosse constituído de duas cores – o preto e o branco com todos os seus graus intermediários – e se qualquer figura fosse vista em monocromo, como as observadas por Berlin Nicolai com seu problema de visão – mesmo então a fotografia ainda não poderia copiá-las corretamente. Devemos nos lembrar de que a Natureza não é apenas feita de sombras e luzes verdadeiras, diretas; por trás dessas massas muito elementares, possui inúmeras luzes e meios-tons refletidos que brincam ao redor de cada objeto, arredondam as arestas mais cortantes, iluminam as zonas mais escuras, clareiam os lugares cobertos de sombras, o que o pintor experiente se deleita em reconstituir”.

   

Conseqüentemente, a questão da verossimilhança

Philippe  Dubois comenta, em “O ato fotográfico”,  sobre a obra de Bazin:


“Este automatismo na constituição da imagem fotográfica não é designado como necessariamente produtor de semelhança. Com certeza Bazin não disse que não existe mimese na foto, longe disso. Porém, não é isso realmente que importa. A semelhança para Bazin não passa de um resultado, de uma característica do produto fotográfico. Ora, o que interessa a ele não é a imagem feita, é mais o próprio fazer, suas modalidades de constituição. É esse fato que é importante, e ele diz com todas as letras: ’’a solução não esta no resultado, mas na gênese.” Essa gênese é automática. A ontologia da foto está, em primeiro lugar, nisso. Não no efeito de mimetismo, mas na relação de contigüidade momentânea entre a imagem e seu referente, no principio de uma transferência do real para a película sensível. A idéia do traço, da marca, está implicitamente presente nesse tipo de discurso. Para falar nos termos de Ch.S.Peirce, existe, no final das concepções de Bazin, a idéia de que a foto é antes de mais nada índice. O realismo não é negado de forma alguma, é deslocado(...). Por sua gênese automática, a fotografia testemunha irredutivelmente a existência do referente mas isso não significa a priori que ela se pareça com ele. O peso do real vem do fato de ela ser um traço, não de ser mimese”.