1. Uma reflexão sobre pintura
Há muitas perspectivas a partir das quais se pode refletir sobre pintura, e a que se propõe mais imediatamente é a reflexão histórica. Obviamente, a História testemunha o seu significado e o compartilha, não só com pintura, mas com a arte de forma geral, se espelha nela.
A pintura, assim como as outras artes, demonstra com eficácia as muitas nuances da Historia. No entanto, no presente texto, achei mais relevante concentrar-me sobre um ponto de vista mais particular em relação à pintura. Acredito que cada artista tem pequenas diferenças em seu relacionamento, em sua maneira de pensar, sentir e conceber a pintura. Hoje penso a pintura como a imprimir intensidades através do pincel. Expressas através dos movimentos do pincelar, das camadas em transparência ou totalmente saturadas, a escolha das cores sejam elas quentes ou frias, a tinta seja sobre o papel ou sobre a tela são marcas, e cada artista marca de um jeito, na maneira de pegar o pincel, de compor a tinta, de apoiar a si e ao pincel no papel, o tempo de interação, em pinceladas rápidas ou lentas, ele imprime o seu próprio eu na construção da obra; a maneira como se organiza o processo quase que mecânico e extremamente particular em que o artista concebe o seu pintar e o seu olhar para o mundo, retendo ou o exprimindo a maneira de senti-lo, tudo isso se imprime no seu pincelar como que uma identidade. A linguagem abstrata, ao contrário do que parece, não oculta, desvela. Através das pinceladas, o ato ganha um sentido libertário e desvelador, desde pequenas nuances até grandes marcas que, de tão agressivas, marcam o suporte; os contrastes, as intensidades de luz , ou simplesmente pequenas nuances transparentes operando sutilezas, são armas reveladoras. Elas desvelam o artista. Isto não significa que eu não entenda ou não me interesse pelas outras linguagens às quais a pintura dá acesso. Interesso-me pela a questão do desenho e a conversa com a forma do suporte, pesquisas também compartilhadas por Greenberg; apesar da admiração pela pintura figurativa acredito que ela não corresponde aos objetivos de meu trabalho. O fato de optar por trabalhar com uma linguagem compartilhada com a abstrata, não significa que não me interesse por outras linguagens; significa apenas que a linguagem que melhor me serve nesta pesquisa é uma linguagem compartilhada com a da abstracionismo. Entre suas qualidades, entendo que essa explicitação do artista seja, não apenas uma ferramenta útil, e sim uma ferramenta necessária. Uma coisa que o trabalho veio me ensinar é que as boas ferramentas se explicitam como necessárias. Quase não há escolha, ou antes, há escolha, só que não é sua, é do trabalho. O trabalho aponta caminhos.
Em 1939, num diálogo com Brassai, Picasso afirma:
“Quando você vê tudo o que é possível exprimir através da fotografia, descobre tudo o que não pode ficar por mais tempo no horizonte da representação pictural. Por que o artista continuaria a tratar de sujeitos que podem ser obtidos com tanta precisão pela objetiva de um aparelho de fotografia? Seria absurdo, não é? A fotografia chegou no momento certo para libertar a pintura de qualquer anedota, de qualquer literatura e até do sujeito. Em todo caso, um certo aspecto do sujeito hoje depende do campo da fotografia” .
Esse discurso é retomado por André Bazin no texto “A ontologia da imagem fotográfica” (1945):
“Rematando o barroco, a fotografia libertou as artes plásticas de sua obsessão da semelhança. Pois a pintura esforçava-se, no fundo em vão, em nos iludir, e essa ilusão bastava à arte, enquanto a fotografia e o cinema são descobertas que satisfazem definitivamente e em sua própria essência a obsessão do realismo(...). Libertado do complexo da semelhança, o pintor moderno – cujo mito é hoje Picasso – abandona-o ao povo que o identifica a partir de então por um lado à fotografia e, por outro, apenas à pintura que se aplica a isso”.

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