
O que é fotografia?
Penso que a fotografia acima de tudo é o meio que mais se aproxima de um valor de face, do que é o real, daí sua importância permanente como documento simbólico, de memória cultural. Porém há uma série de questões a se considerar.
A questão da dimensionalidade
Rudolf Arnheim afirma:
“Em primeiro lugar, a fotografia oferece ao mundo uma imagem determinada ao mesmo tempo pelo ângulo de visão escolhido, por sua distância do objeto e pelo enquadramento. A fotografia reduz a tridimensionalidade do objeto a uma imagem bidimensional, todo o campo cromático reduzido a contrastes brancos e pretos. Ela isola um ponto preciso do espaço-tempo e é puramente visual”.
A questão da luminosidade/ cor
Lady Elizabeth Eastlake, em texto publicado em 1857:
“Conseqüentemente, é evidente que, qualquer que seja o sucesso que a fotografia possa ter quanto a uma estrita imitação dos jogos de sombra e de luz, nem por isso deixa de falhar na restituição de um verdadeiro “chiaroscuro”, ou na verdadeira imitação da luz e da obscuridade. E, mesmo se o mundo no qual nos encontramos, em vez de se exibir diante de nossos olhos com todas as variedades de uma paleta colorida, só fosse constituído de duas cores – o preto e o branco com todos os seus graus intermediários – e se qualquer figura fosse vista em monocromo, como as observadas por Berlin Nicolai com seu problema de visão – mesmo então a fotografia ainda não poderia copiá-las corretamente. Devemos nos lembrar de que a Natureza não é apenas feita de sombras e luzes verdadeiras, diretas; por trás dessas massas muito elementares, possui inúmeras luzes e meios-tons refletidos que brincam ao redor de cada objeto, arredondam as arestas mais cortantes, iluminam as zonas mais escuras, clareiam os lugares cobertos de sombras, o que o pintor experiente se deleita em reconstituir”.
Conseqüentemente, a questão da verossimilhança
Philippe Dubois comenta, em “O ato fotográfico”, sobre a obra de Bazin:
“Este automatismo na constituição da imagem fotográfica não é designado como necessariamente produtor de semelhança. Com certeza Bazin não disse que não existe mimese na foto, longe disso. Porém, não é isso realmente que importa. A semelhança para Bazin não passa de um resultado, de uma característica do produto fotográfico. Ora, o que interessa a ele não é a imagem feita, é mais o próprio fazer, suas modalidades de constituição. É esse fato que é importante, e ele diz com todas as letras: ’’a solução não esta no resultado, mas na gênese.” Essa gênese é automática. A ontologia da foto está, em primeiro lugar, nisso. Não no efeito de mimetismo, mas na relação de contigüidade momentânea entre a imagem e seu referente, no principio de uma transferência do real para a película sensível. A idéia do traço, da marca, está implicitamente presente nesse tipo de discurso. Para falar nos termos de Ch.S.Peirce, existe, no final das concepções de Bazin, a idéia de que a foto é antes de mais nada índice. O realismo não é negado de forma alguma, é deslocado(...). Por sua gênese automática, a fotografia testemunha irredutivelmente a existência do referente mas isso não significa a priori que ela se pareça com ele. O peso do real vem do fato de ela ser um traço, não de ser mimese”.

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