6. O tempo: “pintar sobre a foto é ressuscitá-la”
O ato de fotografar realiza um corte tanto espacial quanto temporal: imobiliza (petrifica, como o olhar da Medusa) o tempo, a imagem, em um determinado recorte; ao mesmo tempo, insinua, dá pistas, sobre aquilo que foi deixado de fora, sobre o que está ausente na foto. É interessante lembrar as analogias entre o jargão fotográfico e a morte: disparar, shoot.Morte é sinônimo de eternidade, outra vez petrificação. Barthes justifica a escolha da palavra spectrum para designar o fotografado porque ela acrescenta à raiz etimológica de “espetáculo” “essa coisa um pouco terrível que há em toda fotografia: o retorno do morto”. E Peeter Laurits recorre à palavra “fantasmas” para se referir à evocação do tempo pela foto:
Cada imagem fotográfica em si mesma é uma pinhole alfinetada no tempo, uma janela entre passado e presente, expondo nossas mentes aos fantasmas de momentos passados, misturando memórias e desejo...
Pintar sobre uma foto, de certo modo, é ressuscitá-la, trazê-la para o presente, mudar o tempo de sua imobilização. Passado, presente. Presente que mostra o passado, aquilo que “ uma fotografia mostra (...), tão importante quanto o que ela insinua... o ausente está presente, mas fora-de-campo, sabe-se que esteve ali no momento da tomada”. Presentificados no ato de retomá-la e ressuscitá-la, o fotógrafo e o pintor. Recuperando memórias, traços do real à espera de revelação – desvelamento.
Pintar sobre a foto é como que revelá-la de novo. Ora, no caso da foto, é no processo de revelação que se torna mais evidente, mais óbvia, a presença da pessoalidade do artista. Retomar o processo de revelação através da pintura me parece aprofundar ainda mais essa presença. Refletir sobre esse processo é reafirmar a prioridade da gênese, do fazer, do ato de marcar. Daí, penso, a necessidade que senti de tentar explicitar esse processo e refletir sobre ele. Acho o processo importante não só por explicitar essa linha tênue entre artista e trabalho, dizendo mais sobre como se relaciona com o seu fazer, mas também por considerar o artista, em seu fazer, parte fundamental para a compreensão do seu trabalho e das razões que motivam a sua obsessão criativa.

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