terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A questão da escolha

A questão da escolha


Uma primeira reflexão sobre o processo já é desencadeada pelo momento de seleção das fotos. São imagens distantes. São traços de uma identidade imobilizados em um tempo que, de certa forma, é trazido para o presente – novamente revelado ou desvelado – pela interferência que faço sobre as imagens. Discutindo a questão da planaridade da pintura, Greenberg afirma: “Todas as entidades reconhecíveis (inclusive as próprias pinturas) existem no espaço tridimensional, e a mais leve sugestão de uma entidade reconhecível basta para evocar associações desse tipo de espaço (...) (mesmo) uma silhueta fragmentária de uma figura humana (...)terá esse efeito e alienará o espaço pictórico da bimensionalidade literal... “ . Ora, pode-se pensar que, da mesma forma que evoca o espaço tridimensional, a figura evoca um tempo, um momento histórico, seja pessoal ou social. O produto desse processo de transformação, embora plano e atemporal (situado no presente), contém essa história de  transformação da figura original. Mais uma vez, o processo, a gênese, aparecem como prioritários em relação ao produto. 

Evocação de tempo é também desencadeamento de memória. Gore Vidal recorre à metáfora do palimpsesto para intitular suas memórias: “Palimpsesto: discretas camadas arqueológicas de uma vida a ser escavada como as diferentes camadas da antiga Tróia, onde, em algum lugar sob aquelas cidades sobre cidades, a gente espera achar (...) toda aquela ira a partir da qual se originou o nosso mundo”.  Talvez pintar sobre a foto de infância, tal como escrever memórias, seja também uma forma de compreender  uma  origem, uma   identidade, escavando e escrevendo sobre escritas anteriores.   

Algumas outras noções me parecem instigantes para esta reflexão sobre escolha. Barthes distingue, na relação entre a foto e o spectator, dois elementos: o studium, referente a um interesse genérico, cultural, que a foto pode despertar – “o campo muito vasto do desejo indolente, do interesse diversificado, do gosto inconseqüente... O studium é da ordem do to like, e não do to love” (p. 47); em contraste, o punctum é algo que marca, que punge, que envolve, que fere. É o que prende o olhar na foto, torna-a subjetivamente significativa. 


( a foto do Jardim de Inverno) existe apenas para mim (...). Quando muito, interessaria ao studium de vocês: época, roupa, fotogenia; mas nela, para vocês, não há nenhuma ferida ( = não há punctum)”.   


Onde está ou o que é o punctum  de uma foto para um particular espectador nem sempre – ou raramente? – pode ser determinado: “... é um detalhe que me atrai... é dado por acaso e para nada... Para perceber o punctum, nenhuma análise, portanto, me seria útil (talvez, às vezes (...) a lembrança)” –  novamente, o tempo e a memória.  

Segundo Barthes, portanto, é o punctum que subjaz à escolha, à atração do olhar, da atenção, à relação subjetiva com a foto (talvez não apenas com ela?), mas nem sempre é fácil identificá-lo ou conscientizá-lo. Parece-me que essa proposta, e a referência à lembrança, em certo sentido podem ser complementadas com a noção de desejo e sua congruência com índice, tal como exploradas por Dubois. Discutindo o valor de fetiche de álbuns de família, ele aponta que “aos olhos do desejo, a representação não vale tanto como semelhança quanto como traço” : para a moça enamorada, que desenha na parede a silhueta projetada pela sombra do namorado que parte, vale afetivamente o traço da presença física do amante, não a semelhança com sua figura. “A pintura nasce índice porque se baseia no desejo”.  Analogamente, nas fotos da infância, o que inspira o desejo não seria antes o valor de índice, de atestado de existência, antes que a semelhança ou a memória (ícone, símbolo)? E a intervenção através da pintura não seria também desejo de atualizar, rever, desvelar esse valor? 

Finalmente, parece inevitável mencionar a questão do narcisismo, também tratada por Dubois nesse contexto. Trata-se, afinal de contas, de um auto-retrato. “Não existe praticamente um único fotógrafo importante que não tenha voltado contra ele sua caixinha negra” (e também, poderíamos acrescentar, muitos pintores), até porque “o narcisismo indiciário do auto-retrato só pode se realizar teoricamente na petrificação fotográfica” – usando pintura a partir da sombra ou do espelho para o auto-retrato a própria ação do artista modifica sua imagem.  Acho interessante refletir sobre o narcisismo possível no auto-retrato construído a partir da foto, através de técnicas que mimetizam o espelho, a sombra e a projeção da luz – neste caso, a mesa de luz .  


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