Mitologias de espelhos e o índice na pintura
No capítulo Histórias de sombras e mitologias de espelhos, Dubois propõe a idéia de que outras formas de arte (especialmente a pintura) também são índices. Parte da pergunta: “o que ocorre com essa lógica do índice revelada pela fotografia nas outras práticas artísticas representativas?” . Explora essa pergunta sob dois aspectos: o evolutivo ou prospectivo – se a fotografia influenciou/ modificou outros meios de expressão na direção de uma lógica indiciária; e regressivo ou retrospectivo – se a lógica indiciária que a fotografia parece ter detonado não estava presente já em práticas representativas anteriores à existência do meio fotoquímico. E conclui que nos dois casos a resposta é positiva.
Sob o ponto de vista prospectivo, a idéia é de que na arte contemporânea (século XX) há uma “passagem da categoria de ícone à de índice, passagem considerada não apenas um marco histórico da modernidade, mas também (...) um deslocamento teórico, onde uma estética (clássica) da mimese, da analogia e da semelhança (a ordem da metáfora) cederia espaço a uma estética do traço, do contato, da contigüidade referencial (a ordem da metonímia)” . Sob o ponto de vista retrospectivo, sugere-se que a própria pintura em sua fase primitiva era trabalhada pela questão do índice (presença e contigüidade do referente) tanto ou mais do que pela questão da semelhança (ícone). Toda a história e a teoria da arte teriam (...) a pregnância irredutível da dimensão pragmática, isto é a necessidade de uma “inscrição referencial” . Essa proposta vai ser examinada procurando, na origem da pintura, a impressão, o decalque, e principalmente a sombra e o espelho, para argumentar que “a representação nasceu por contato” . Esse argumento é desenvolvido através da referência aos registros pré-históricos de Lascaux, em que mãos foram desenhadas a partir de contato direto com a superfície, e a registros de sombras delineadas a partir de sua projeção em uma superfície. Essas referências constituem uma ampliação da noção de índice (em termos de formas de proximidade ou de contato físico) que terão que ser retomadas quando se abordar o processo de construção do presente trabalho.
Além disso, em sua discussão sobre a sombra, Dubois aborda as questões do narcisismo e do desejo, ambas relevantes, me parece, para a discussão de minha proposta, e que também retomarei ao refletir sobre o processo do trabalho.

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