“Inutilizei um caderno de papel almaço, e o primeiro rascunho, à força de rasuras,
emendas, reenvios, chamadas, interversões, acabou por ser para mim próprio
o mais impenetrável palimpsesto”
Aquilino Ribeiro, Lápides partidas.*
Este trabalho é um palimpsesto: manuscrito sob cujo texto se descobre (...) a escrita ou escritas anteriores. Em termos plásticos, sua forma final consiste em fotos de pinturas sucessivamente realizadas sobre outras fotos no decorrer da construção da obra. No texto que se segue, procuro refletir sobre esse processo de construção, tendo como questão central a presença da pessoalidade do artista em qualquer forma de expressão artística, e utilizando como guia a concepção de obra de arte como índice, tal como discutida por Dubois com base na conceituação de índice de Peirce.
No processo de construção da obra, exerço as três práticas (ou emoções, ou intenções) das quais a fotografia pode ser objeto segundo a conceituação de Barthes: a de spectrum – uma vez que as fotos que constituem o ponto de partida são retratos meus na primeira infância; a de spectator – através da exposição a essas fotos e escolha entre elas; a de operator – ao fotografar as minhas sucessivas intervenções através da pintura até chegar à forma plástica final. Essa forma tríplice de envolvimento com a fotografia ao longo do trabalho trouxe particularmente à tona a questão da pessoalidade e da subjetividade no processo de criação artística.
Por outro lado, a noção de índice, tal como tratada por Dubois, guiou-me na reflexão sobre essas noções e no próprio desenvolvimento do trabalho, especialmente através da recuperação do caráter indiciário da pintura. Na primeira parte do texto, recorro a essas e outras fontes para situar conceitualmente o trabalho. A segunda parte trata do processo de sua realização.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
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