quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Memória de trabalho: o álbum

Memória de trabalho: o álbum

Conforme o andamento do trabalho, foram sendo fotografadas em seu processo as etapas nas quais julguei haver imagens significativas. O esforço era de obter imagens que, ao mesmo tempo, funcionassem de maneiras distintas, mas que fizessem parte da mesma ação de interferência: uma busca de transformação que mantivesse uma continuidade.
Iniciei o trabalho com duas imagens, em que passei a intervir quase que simultaneamente. A partir do momento em que terminava de fotografar um primeiro ciclo de trabalho em cima de uma imagem, começava a trabalhar a segunda. Esperava que fosse ocorrer um processo de desvinculação mental da primeira imagem, ao se iniciar a segunda da estaca zero. Dia a dia, ao retomar o trabalho com as imagens, notei que havia um certo desprendimento na memória imediata em relação à exatidão de sua forma original. Parecia-me que esse processo facilitaria a continuidade do trabalho na direção de uma abstração progressivamente maior.
À medida que as fotos eram reveladas, foram montadas em ordem cronológica em um álbum. A utilização do álbum visava uma organização mental e construtiva do trabalho. Foi uma forma plástica da qual eu me utilizei para organizar o trabalho, não só na minha mente, mas no processo construtivo de seu desenvolvimento. A ordem da montagem fotográfica em álbum se dava do fim para o começo, na intenção de acentuar a perda de referência da imagem inicial. A idéia era, a cada retomada do trabalho, partir da última imagem realizada, da memória mais recente, e recuar através das etapas anteriores; começar pela última imagem contribuía para evitar o vício de referencial da primeira imagem. Parecia-me também que, desta forma, eu assumia o ponto de vista do potencial espectador.
Logo no início desse processo ocorreu um momento de insatisfação com a progressão abstrata. Irritado, interferi rasgando a imagem pintada, na ânsia de desvinculá-la do referente. No entanto, antes do início do trabalho eu tinha me proposto uma regra básica: houvesse o que houvesse, acidentes de trabalho, erros de percurso, eu não iniciaria o processo novamente; tentaria de todas as formas incorporar os erros e acidentes de percurso e levar o processo até seu extremo.
Outro aspecto a ser comentado é que, apesar da proposta de trabalho simultâneo em duas imagens, com o objetivo de acentuar a desvinculação, o tempo de desenvolvimento do trabalho em cada imagem era desigual. Utilizei então a fotografia da lacuna não preenchida, na tentativa de demonstrar essa desigualdade de andamento. Em outros casos, espaços lacunares (envelopes vazios) foram deixados no álbum quando a transição entre dois momentos se mostrava interrompida ou abrupta, denotando uma crise de incerteza ou escassez no trabalho.
Inicialmente as imagens eram fotografadas em planos fechados, não emolduradas. A partir de certo momento, experimentei deslocar e inverter as folhas sobrepostas, para criar maior diversidade de imagens abstratas. Passei então fotografá-las com inclusão das molduras, de forma a evidenciar os movimentos de sobreposição das imagens nesse percurso de desvinculação.

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